terça-feira, 5 de janeiro de 2016

O Caçador de Esmeraldas - Olavo Bilac

Boa Noite meus amores *-*
Vamos de poesia hoje?
Sempre fui muito apegada á poesias e essa é uma especial que eu gosto muito !!!
Mas antes, Quem é Olavo Bilac??

OLAVO BILAC - O CARIOCA (1865-1918) FOI UM POETA LIGADO AO PARNASIANISMO, MOVIMENTO LITERÁRIO QUE DAVA MUITA IMPORTÂNCIA Á FORMA POÉTICA E GOSTAVA DE EMPREGAR PALAVRAS DIFÍCEIS E IMAGENS COMPLICADAS. COMO TAMBÉM ERA MUITO PATRIOTA (É AUTOR DA LETRA DO HINO Á BANDEIRA), ACABOU IGUALMENTE SENDO UM DOS FUNDADORES DE NOSSA LITERATURA PARA CRIANÇAS, COM O LIVRO POESIAS INFANTIS. QUERIA DIVULGAR A LEITURA, FAZIA CAMPANHAS PELA ALFABETIZAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO E PELO SERVIÇO MILITAR OBRIGATÓRIO. 




Bem, agora a poesia de Olavo Bilac

 O Caçador de Esmeraldas (trecho)

 Fernão Dia Paes Leme agoniza. Um lamento
Chora longo, a rolar na longa voz do vento.
Mugem soturnamente as águas. O céu arde.
Trasmonta fulvo o sol. E a natureza assiste,
Na mesma solidão e á agonia da tarde.

Piam perto, na sombra, as aves agoireiras.
Silvam as cobras. Longe, as feras carniceiras
Uivam nas lapas. Desce a noite, como um véu...
Pálido, no palor da luz, o sertanejo
Estorce-se no crebro e derradeiro arquejo.
- Fernão Dias Paes Leme agoniza, e olha o céu.

Oh! esse último olhar ao firmamento! A vida
Em surtos de paixão e febre repartida,
Toda, num só olhar, devorando as estrelas!
Esse olhar, que sai como um beijo da pupila,
- Que as implora, que bebe a sua luz tranquila,
Que morre... e nunca mais, nunca mais há-de vê-las!

Ei-las todas, enchendo o céu, de canto a canto...
Nunca assim se espalhou, resplandecendo tanto,
Tanta constelação pela planície azul!
Nunca Vênus assim fulgiu! Nunca tão perto,
Nunca com tanto amor sobre o sertão deserto
Pairou tremulamente o Cruzeiro do Sul!

Noites de outrora!... Enquanto a bandeira dormia
Exausta, e áspero o vento em derredor zunia,
E a voz do noitibó soava como um agouro,
-Quantas vezes Fernão, do cabeço de um monte,
Via lenta subir do fundo do horizonte
A claro procissão dessas bandeiras de ouro!

Adeus, astros da noite! Adeus, frescas ramagens
Que a aurora desmanchava em perfumes selvagens!
Ninhos cantando no ar! suspensos gineceus
Ressoantes de amor! outonos benfeitores!
Nuvens e aves, adeus! adeus, feras e flores!
Fernão Dias Paes Leme espera a morte... Adeus!

O Sertanista ousado agoniza, sozinho...
Empasta-lhe o suor a barba em desalinho:
E com a roupa de couro em farrapos, deitado
Com a garganta afogada em uivos, ululante,
Entre os troncos da brenha hirsuta, - o Bandeirante
Jaz por terra, á feição de um tronco derribado...

E o delírio começa. A mão, que a febre agita,
Ergue-se, treme no ar, sobe, descamba aflita,
Crispa os dedos, e sonda a terra, e escarva o chão:
Sangra as unhas, revolve as raízes, acerta,
Agarra o saco, e apalpa-o, e contra o peito o aperta,
Como para o enterrar dentro do coração.

Ah! mísero demente! o teu tesouro é falso!
Tu caminhaste em vão, por sete anos, no encalço
De uma nuvem falaz, de um sonho malfazejo!
Enganou-te a ambição! mais pobre que um mendigo,
Agonizas, sem luz, sem amor, sem amigo,
Sem ter quem te conceda a extrema-unção de um beijo!

E foi para morrer de cansaço e de fome,
Sem ter quem, murmurando em lágrimas teu nome,
Te dê uma oração e um punhado de cal,
- Que tantos corações calcaste sob os passos,
E na alma da mulher que te estendia os braços
Sem piedade lançaste um veneno mortal!

E ei-la, a morte! e ei-lo, o fim! A palidez aumenta;
Fernão Dias se esvai, numa síncope lenta...
Mas, agora, um clarão ilumina-lhe a face:
E essa face cavada e magra, que a tortura
Da fome e as privações maceraram, - fulgura,
Como se a asa ideal de um arcanjo a roçasse.


Adoça-se-lhe o olhar, num fulgor indeciso;
Leve, na boca aflante, esvoaça-lhe um sorriso...
- E adelgaça-se o véu das sombras. O luar
Abre no horror da noite uma verde clareira.
Como para abraçar a natureza inteira,
Fernão Dias Paes Leme estira os braços no ar...

Morre! germinarão as sagradas sementes
Das gotas de suor, das lágrimas ardentes!
Hão-de frutificar as fomes e as vigílias!
E um dia, povoada a terra em que te deitas,
Quando, aos beijos do sol, sobrarem as colheitas,
Quando, aos beijos do amor, crescerem as famílias,

Tu cantarás na voz, nas charruas,
No esto da multidão, no tumultuar das ruas,
No clamor do trabalho e nos hinos da paz!
E, subjugando o olvido, através das idades,
Violador de sertões, plantador de cidades,
Dentro do coração da Pátria viverás!"

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Cala-se a estranha voz. Dorme de novo tudo.
Agora, a deslizar pelo arvoredo mudo,
Como um choro de prata algente o luar escorre.
E sereno, feliz, no maternal regaço
Da terra, sob a paz estrelada do espaço,
Fernão Dias Paes Leme os olhos cerra. E morre.

Glossário:

aflante: ofegante
agoireiras: que anunciam desgraças
algente: gélido, frio
arquejo: respiração difícil
brenha: mata espessa
charruas: campos
colmados: feixes
cômoro: monte, duna
crebo: repetido
derredor: em volta, ao redor
espancava: feria 
esto: ruído
estorce-se: contorcer-se
exsurge: levanta, ergue-se
falaz: ilusório, enganoso
fulgiu: brilhou
fulgor: brilho, clarão
fulvo: de cor amarelo escuro
gineceus: órgão feminino das flores, composto pelo ovário, estilete e estigma, que delas se desprendem
hirsuta: de hastes longas, finas e duras 
labor: trabalho
lapas: grutas de pedra
maceraram: machucaram
malfazejo: malfeitor
mugem: batem com força fazendo barulho
noitibó: nome dado a diversas aves de hábitos noturnos
olvido: esquecimento
palor: palidez
pender: inclinação
poisara:pousara
regaço: lugar de repouso ou abrigo
síncope: desmaio
soidão: solidão
trasmonta: desaparece, esconde-se
ululante: que grita de aflição ou de dor

Que esta poesia chegue ao ♥ dos amantes e dos não amantes da poesia brasileira ....
Escrevo com amor !!!!
Até o próximo poste :*

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